


É como se não tivesse no meu lugar, é como se tivesse deslocada. Como se todo meu quarto tivesse ao avesso, meu mundo de cabeça pra baixo e eu ainda não tenha percebido, ou ainda não tenha conseguido consertar. Eu vejo meus horários mudados, meus dias vagos, uma rotina inconstante. Eu sigo em frente, mas é como se tivesse sendo empurrada por alguém, para algum lugar que estou pouco me importando de saber qual seja. Preciso de alguém que segure meu rosto, me faça parar e me ordene que volte pro meu mundo, volte a ser o que era e seja feliz. Preciso de alguém que me faça ter ao menos alguma certeza na vida de que aquilo é o que eu quero. Eu preciso disso, de certezas, cansei da minha vida nômade de inconstâncias, cansei.
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais. Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta. Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor. Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso. Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais. Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida. Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ”Olha que estou tendo muita paciência com você!” Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize. Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire. Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso. Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher. Lya Luft